Vaierá

Vaierá, nov. 2020, Ḥeshván 5781

Rabino Uri Lam, Beth-El

“E Deus lhe apareceu… enquanto ele estava sentado à entrada da tenda, ao calor do dia” (Gênesis 18:1). Assim começa a Torá nesta semana. Abrão recém realizou o seu brit milá. Era um homem com quase 100 anos. Conta-nos o Midrash que, sabendo da natureza acolhedora de Abrahão, Deus tornou o dia ainda mais quente para evitar que muitos peregrinos se aventurassem a sair de casa, e assim preservar Abrahão durante o seu resguardo. O Deus Misericordioso, no entanto, pretendia visitar Abrahão para saber como estava, ou quem sabe, se fazer representar.

Era já o terceiro dia desde que o Patriarca se auto impusera a circuncisão. Podemos imaginá-lo em casa, talvez prostrado, dedicando tempo a refletir sobre os ensinamentos divinos – em uma palavra: Torá.

Conta-nos os Pirkê Avot, os Ditados Fundamentais dos Antepassados, que “Ben Bag Bag [olha ele aí] afirmou: “Vire e revire a Torá, pois tudo está nela; olhe profundamente para ela; envelheça e amadureça com ela”. (…)

Ben Hê Hê disse: “A recompensa é proporcional ao esforço diligente.” Ele ainda costumava dizer: “Aos 5 anos [deve-se começar] o estudo das Escrituras; aos 10 o estudo da Mishná; aos 13 [a obrigação de cumprir] as mitzvot; …” e por aí vai. Mais adiante ele diz: “Aos 100 é como se estivesse morto, desaparecido e sido suprimido do mundo”.

Pois é, Abrão estava com quase cem anos, mas estava longe de estar fora do mundo; ao contrário, espiritualmente era como um bebê recém circuncidado, com um mundo inteiro de vivências pela frente, que ainda encontrava forças para acolher toda e qualquer pessoa em sua casa.

Mas quem são Ben Bag Bag e Ben Hê Hê?

Rabi Ben Bag-Bag foi discípulo de Rabi Hilel, na época da Mishná. Rabi Ben Hê-Hê provavelmente é outro nome para Ben Bag-Bag. Especula-se que as letras do seu nome, Beit e Guímel, indicam que tenha sido um guer ou filho de um guer, um estrangeiro ou filho de um estrangeiro que se converteu ao judaísmo. Uma tradição rabínica sustenta que foi ele quem procurou por Shamai e Hilel e lhes propôs um desafio: que se converteria ao judaísmo se toda a Torá lhe fosse ensinada enquanto se equilibrasse em um pé só. Shamai o rechaçou, Hilel o acolheu – assim como Abrahão acolheu os peregrinos em sua tenda. Os estrangeiros que abordaram Abrahão se revelaram anjos; o estrangeiro que abordou Hilel se revelou um grande rabino.

Receber bem, acolher. Em hebraico, hachnassat orchim, literalmente trazer os convidados para dentro. Rebe Nachman de Breslav afirmava que receber bem as pessoas dava à mulher o mérito de ter filhos (assim como Sara deu à luz Isaac) e dava o mesmo prazer que receber bem o Shabat.

Para receber alguém em casa é preciso, antes de tudo, confiar nas pessoas e em Deus. A palavra hebraica para acreditar é Emuná. O valor numérico de Emuná é o mesmo que para Banim, filhos. Se acreditamos que receber bem alguém faz bem, teremos muitos filhos, seja no sentido literal, seja alunos, amigos, quem sabe até mesmo um companheiro ou companheira de vida.

A nossa congregação é a nossa Tenda de Abrahão. Não podemos deixar de acolher nela os anjos e sábios que passam na nossa frente. Nunca sabemos se cruzaremos, entre eles, com um futuro Rav Bag Bag. Como diz a Ética dos Pais (4:20)

.רַבִּי אוֹמֵר: אַל תִּסְתַּכֵּל בַּקַּנְקַן, אֶלָּא בְמַה שֶּׁיֶּשׁ בּוֹ

Rabi Meir diz: Não olhe para o vaso, mas para o que tem dentro dele.