Vaerá

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Rabino Uri Lam, Beth-El, janeiro de 2020

O Prêmio Nobel da Paz em 1986, Elie Wiesel (z’l), que sobreviveu aos campos de extermínio de Auschwitz e Buchenwald, dedicou a vida a resgatar memórias do povo judeu neste período nefasto da história, mas também defendeu o direito à vida de outros grupos vítimas de perseguição. Estas são algumas das suas palavras: “Ser humano é compartilhar uma origem comum. E se nós compartilhamos de uma origem comum, nossos destinos estão entrelaçados. O que acontecer comigo acabará por acontecer com você… O mandamento bíblico mais importante é Ló taamód al dam reaḥá – não permaneça parado ao lado do sangue do seu semelhante. A palavra reaḥá [na verdade significa] um ser humano como você… é universal. Qualquer um que esteja sofrendo, qualquer um que seja ameaçado se torna sua responsabilidade.”

Wiesel, que vivenciou e presenciou o horror, logo entendeu que pikuaḥ néfesh – a preservação da vida humana – tem precedência sobre todos os outros mandamentos. E não é por ser um conceito judaico que pikuaḥ néfesh se estende somente aos nossos irmãos judeus. Ao contrário, o que nos faz judeus é reconhecermos como uma mitzvá fazer o que estiver ao nosso alcance para salvar vidas.

Cada geração tem um grau de consciência diferente. Ao comunicar a Moisés que esperava que ele libertasse os hebreus da servidão no Egito, Deus lhe explicou que, para os seus antepassados, havia se apresentado como El Shadai; mas para ele, Moisés, apresentava-se como Eheiê Asher Eheiê. Segundo o rabino italiano Menachem Recanati (1250-1310), até mesmo o Faraó conhecia Deus, mas por outro nome: Elohim. Quando Moisés se apresentou como mensageiro de YHVH, o Faraó respondeu, com honestidade: “Não conheço (Êx. 5:2). Então Moisés e seu irmão Aarão esclareceram: “É o Deus dos hebreus” (Êx. 5:3).

O que significam os diversos nomes de Deus? El Shadai, revelado aos patriarcas e matriarcas e nome familiar aos hebreus escravizados no Egito, poder ser entendido em um sentido masculino e outro feminino: El Shadai pode ser o Deus Que se Basta, o Todo-Poderoso; ou El Shed-dai, o Nosso Seio, a Deusa que Nutre, a Sheḥiná, a Presença Divina que permeia a Terra. Para Moisés, Deus se revelou como Eheiê Asher Eheiê, Serei o que Serei, um Deus que aponta para o futuro do futuro. Elohim, conhecido pelo Faraó, é o modo de nos referirmos a Deus desde o início da Criação, o Criador dos Céus e da Terra.

Por último, YHVH, comumente traduzido como O Eterno, é impossível de ser pronunciado ou definido; Nome que sobrepõe tempos presente, passado e futuro. Este Deus é o SEMPRE, como propôs o rabino Nilton Bonder; é verbo que se renova constantemente, segundo Reb Arthur Green, provavelmente inspirado por Reb Zalman Schachter z”l.

Diferentes compreensões de Deus, cada vez mais sofisticadas e difíceis de se definir, ainda assim se referem ao mesmo e Único Deus.

Para o rabino Arthur Waskow, YHVH é o Espírito Divino que respira e inspira constantemente o mundo. Localizado no centro da Árvore da Vida, na Sefirá de Tiféret, é o pivô que concilia todos os opostos, permeando o mundo de vida, sabedoria e amor, e dá sentido aos fatos ocorridos no tempo de modo não linear. É orientado por este Deus Conciliador que Moisés encontrará palavras para falar com os hebreus e outras palavras para falar com o Faraó.

Voltemos às palavras de Elie Wiesel: “Ser humano é compartilhar uma origem comum… nossos destinos estão entrelaçados. O que acontecer comigo acabará por acontecer com você… qualquer um que seja ameaçado se torna sua responsabilidade.”

Nos últimos tempos a cultura brasileira tem sido ameaçada por uma mistura de servidão do Egito que, nos últimos dias, ganhou pinceladas de propaganda nazista. A cabeça da serpente, por ter saído para fora de águas venenosas e poluídas, foi cortada. Mas a serpente segue viva e acredita ter a missão de salvar a cultura, com a graça de Deus, contra os ateus e os infiéis.

Nos próximos dias haverá diversos eventos em memória do Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, como domingo na CIP, a partir das 18h, com apoio da Beth-El. Devemos marcar presença e dizer “Estamos Aqui, Nós nos Lembramos”. Que possamos conciliar o passado de dor dos nossos pais e avós na Shoá com um futuro livre, justo e amoroso para todos. Que passado e futuro estejam conectados por um presente atento às ameaças de servidão vindas do passado, mas também à esperança de um futuro promissor, cujas linhas ainda estão sendo escritas em parceria entre nós e YHVH, o Respirar do Universo.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]