Toldot

Rabino Uri Lam, novembro de 2020, Kislev 5781

Veêle toldot Itzak ben Avraham. Avraham holid et Itzak.

“Estas são as gerações de Isaac, filho de Abrahão. Abrahão gerou Isaac”. Depois que Sara morreu, Isaac casou-se com Rebeca. Algum tempo depois, Abrahão também morreu. Só depois de 20 anos casados, o casal conseguiu engravidar. A gravidez não foi fácil: eram gêmeos – e brigavam dentro dela. Rebeca consultou Deus, que lhe comunicou: “Há duas nações em seu ventre: a mais jovem [Jacob/Israel] prevalecerá sobre a mais velha [Esaú].” Até aqui.

Como ler a Torá? Literalmente? Ou dar asas à intuição e ler com os olhos da alma? Os sábios amigos que protagonizam as histórias do Zohar entenderam a Torá com os olhos da alma. Eles voavam alto, bem alto.

Ao ler que “estas são as gerações de Isaac filho, de Abrahão. Abrahão gerou Isaac”, Rabi Itzḥak respirou fundo e disse: “As mandrágoras exalam perfume”… soltou o ar… e ficou em silêncio, como que meditando. O que ele quis dizer?

Aliás, o que são mandrágoras?

Mandrágora é uma planta cujos frutos amarelos, fofos, com aroma forte e atraente, têm efeito afrodisíaco, alucinógeno, analgésico e narcótico. A mandrágora inspirou viagens espirituais de místicos de todos os tempos e de todos os povos. No Cântico dos Cânticos (Shir Hashirim), atribuído ao Rei Salomão, encontramos a seguinte referência: “As mandrágoras exalam perfume e, junto às nossas portas, há todo tipo de frutos excelentes, novos e velhos; ah meu amado, eu os guardei para você” (Shir Hashirim 7:14).

Abrahão ter gerado Isaac fez com que Rabi Itzḥak se lembrasse do perfume inebriante das mandrágoras. A partir da sua fala, os demais sábios que estavam com ele ensinaram que, num futuro distante, Deus ressuscitará os mortos. Quando isso acontecer, diz o Zohar, Deus fará com que as almas retornem, perfumadas, lá do Jardim do Éden: o Paraíso.

Vamos tentar entender: quando morre uma pessoa querida, dizemos em hebraico que ela partiu para o seu mundo. Ao rezarmos por ela, dizemos que sua alma descansa no Jardim do Éden. Neste momento, podemos nos lembrar dos seus medos, seu olhar, seu toque, suas risadas, seu humor; seu perfume. Enquanto os bens materiais ficam tomando pó, os aspectos espirituais brilham delicados como a luz das estrelas.

Para Rabi Itzḥak, tanto as almas que partiram há muito tempo quanto aquelas que partiram da Terra há pouco tempo levam seus perfumes particulares para o Jardim do Éden. No futuro, afirma o Zohar, todas voltarão de uma vez e entrarão em novos corpos, muito fofos, recém-nascidos, prontos para recebê-las.

Já para Rabi Yehuda, a cada Shabat e a cada início de mês – é o caso agora, Shabat e início do mês de Kislev – três tipos de anjos vêm à Terra para acompanhar as almas dos recém-falecidos. Delicadamente, eles as acolhem em seus locais de enterro e as acompanham até o mundo espiritual. Ao chegarem, Deus se alegra, ao sentir perto Dele as almas de tantos justos e justas, almas que no futuro farão com que nasçam outros homens e mulheres justos e amorosos.

Ao ler “Estas são as gerações de Isaac filho de Abrahão”, Rabi Yehuda entende que estas são as gerações de alegria e de sorrisos que haverá no futuro, nesta mesma época. Para Rabi Yehuda, “Abrahão gerou Isaac” significa que a alma de Abrahão gerou alegria e sorrisos no mundo em que vivemos. Os “Filhos de Abrahão e Sara”, em última instância, têm por natureza almas carregadas de alegria e de sorrisos. Somos filhos de Abrahão e Sara e este é o mês de Ḥanuká, que aponta para o seguinte movimento: enquanto o mundo vai ficando cada vez mais obscuro, cabe a nós aumentar cada vez mais a luz. Que possamos expressar a nossa alegria e espalhar a nossa luz.