Shemot

Rabino Uri Lam

Resultado de imagem para parashat shemot environment

Encerramos, na semana passada, o Livro de Gênesis. Agora entramos no Livro do Êxodo. Entre um e outro, os ossos de José. Depois de enterrar seu pai em Canaã, José ficou em paz com seus irmãos, teve uma velhice tranquila, acompanhou o crescimento dos filhos e teve a alegria de conhecer os netos. Quando estava para morrer, José, fez os filhos de Israel jurarem que “quando Deus cuidar de vocês, levem os meus ossos daqui”.

Os ossos de José levados para Canaã unem o povo de Israel do Gênesis ao Povo de Israel do Êxodo. Eles seriam carregados por séculos. Nosso povo foi escravizado no Egito e assim permaneceu por muitas gerações. Quando os israelitas foram libertados, Moisés fez questão de cumprir o desejo de José e levou seus ossos consigo (Êxodo 13:19). Passados os quarenta anos no deserto, Moisés morreu e o Povo de Israel entrou em Canaã sob a liderança de Josué. Ele também morreu, e só depois disso os anciãos que o sucederam enterraram os ossos de José na cidade de Sheḥêm (Josué 24:31).

Por que tanto esforço para cumprir a promessa feita a José de levar seus ossos para Israel? Qual é a importância? Muita. De acordo com o Talmud, o caixão com os ossos de José foi carregado no deserto lado a lado com a Arca da Aliança, onde estavam as Tábuas da Torá.

Durante a Conferência Rabínica Ohalah 2020, em Boulder, Colorado (EUA), o rabino Arthur Waskow destacou que não deixaremos para as próximas gerações o estilo das nossas roupas nem o vigor dos nossos corpos. Com estes então, o tempo é inexorável: o corpo vai se desvitalizando até que, um dia. expiramos e morremos. O que era corpo  se torna cadáver: num jogo de palavras com o hebraico, deixa de ser medabêr, um ser falante, inteligente e vivo, e passa a ser kadavár, como se fosse uma coisa inerte. O corpo humano se desfaz e retorna para o ciclo da natureza.

Os ossos, porém, resistem ao tempo. Justamente eles, aparentemente o que temos de mais “morto” dentro de nós. A crença judaica na ressurreição dos mortos está baseada nos ossos, que são comparados às sementes. Um ossinho da ponta inferior da espinha, conhecido como sacro, seria a semente humana da qual um dia brotaremos. Na tradição judaica, este ossinho se chama Luz. Segundo o Zohar, no momento da ressurreição, este osso amolecerá o corpo morto e agirá sobre ele tal qual fermento na massa. Em seguida, o osso se expandirá nas quatro direções, formando um esqueleto, sobre o corpo se expandirá e os órgãos crescerão. Quando o corpo estiver pronto, Deus soprará mais uma vez a alma para dentro dele.

A promessa divina, portanto, é que um dia brotaremos como árvores. Aliás, na Amidá rezamos que Deus, o Soberano que faz morrer e faz viver, por fim fará brotar a redenção. Na versão sefaradi do Kadish lemos: vaitzmáḥ purkanê vikarev meshiḥê, Deus fará brotar a salvação e trará a era messiânica.

Falando em sementes e florescimentos, o aquecimento global e a agressão à natureza foram o foco deste encontro rabínico do qual participei. Foi explicitado o quanto a tradição judaica preza a preservação da natureza e só concebe um tempo messiânico em um mundo preservado. O mundo inteiro é interdependente do mesmo modo como a vida em cada um de nós depende de cada um dos nossos órgãos. Não existe órgão mais ou menos importante; não existe terra mais ou menos distante com a qual nos preocuparmos mais ou menos. Os incêndios na Austrália darão a volta ao mundo; respiraremos a sua fumaça tanto quanto somos prejudicados pelas queimadas ilegais na Amazônia. Não podemos considerar que a Austrália, a floresta amazônica, o Rio Doce ou uma geleira no Polo Norte não são nossa preocupação por estarem longe. Haolam hu adam gadol, haadam hu olam katan, explicaram os rabinos. O mundo é um homem grande, o homem é um mundo pequeno. Macrocosmo e Microcosmo, refletidos um no outro. Ao destruirmos as florestas, por exemplo, estamos matando a nós mesmos. Como judeus, temos a obrigação de agir para que isso não aconteça.

Mas há esperança. Dos ossos de José virão as sementes do futuro. Assim como estes levaram muitos anos até encontrarem descanso, podem levar muitos anos até sensibilizarmos as pessoas a mudarem de atitude e assim revertermos o aquecimento global decorrente das nossas ações humanas. A tradição rabínica nos dá os instrumentos para sabermos qual é o caminho certo a seguir para ajudarmos Deus a fazer com que o nosso mundo ressuscite. Vamos usá-los?