Noaḥ

Rabino Uri Lam, out 2020 Ḥeshvan 5781

Estamos no início do mês de Ḥeshvan, conhecido como Mar Ḥeshvan, o Amargo Ḥeshvan. Por que não o tratarmos como Matok Ḥeshvan, o Doce Ḥeshvan? O mês é o mesmo: depende de como nós o encaramos.

A primeira leitura da Torá de Ḥeshvan é Noach. “Noé, pessoa correta: era tamim em suas gerações” (Gên. 6:9). A Torá é enigmática: Noé era “íntegros” ou “ingênuos” em suas gerações; assim mesmo, no plural. Para se ter uma ideia, entre Noé e Abrão se passaram dez gerações: mas quando Noé morreu, aos 950 anos, Abrão tinha 58 anos.

Segundo o Talmud (Sanhedrin 108a), Rabi Yoḥanan, de família poderosa e conhecido por venerar a própria beleza, dizia que Noé era íntegro se comparado às pessoas da sua geração; mas se comparado a outras gerações, não passaria de um sujeito mediano. Por sua vez, Resh Lakish, de família humilde e que chegou a ganhar a vida como gladiador, dizia: “Não! Noé se manteve íntegro mesmo vivendo entre gente imoral, agressiva e corrupta; se tivesse convivido com pessoas justas, seria reconhecido como um homem ainda mais íntegro.”

Tem quem considere Noé um egoísta porque ele salvou só a própria família, quando poderia ter tentado falar com mais gente para que vivessem de modo mais íntegro e não o fez. E quem diz que ele não fez? Vamos nos colocar na pele de Noé: hoje vivemos em tempos de gente que parece gostar de ver o mundo desmoronar, que acha normal queimar floresta, que usa a palavra para torcer a realidade e ainda afirma que, assim, faz a vontade de Deus: tente falar com essa gente! Tente dizer a eles que, se continuarem assim, o mundo será destruído?

Podemos imaginar que Noé tentou falar com seus conterrâneos, mas não foi escutado. Em vez disso, devem tê-lo chamado de louco, idealista, sinistro, radical, preocupado com as pessoas pobres e, ainda mais, com os pobres animais; que pegasse a arca e esperasse, em seu devaneio, o Dilúvio! E la nave va.

Quem desdenhou de Noé, menosprezou o confinamento na arca e achou que a vida deveria seguir como se nada estivesse de fato ocorrendo, foi pego pelo Dilúvio: Noé avisou.

Um ano solar depois: “No segundo mês, no dia 27 do mês, a Terra secou.” (Gên. 8:12) O Midrash Lékach Tov afirma, taxativo: “É Mar Ḥeshvan”, o Amargo Ḥeshvan. Mas por que amargo? Se este é o mês em que a terra renasceu? Foi justamente em Ḥeshvan que Deus estabeleceu o Arco-Íris, formado pelo encontro da luz com as águas vindas do céu: o sinal do Pacto de Paz, o Pacto Colorido de não mais destruir a diversidade da vida na Terra, apesar da maldade humana.

Chegou a hora de Noé e sua família descerem da arca. Diria o Profeta Isaías: “Vocês sairão com alegria” (Isaías 55:12).

O mundo lá fora está se abrindo aos poucos, refrescado por gotas de chuva, sob a luz do sol da primavera, refletida em sete cores. Está chegando a hora de sair. Mas já está tudo bem no mundo? Claro que não!! O Dilúvio está baixando suas águas, mas as águas ainda estão altas em muitos lugares. Não acabou.

E como fazer? Rebe Nachman de Breslav explica que o segredo a situações assim é identificar o seu ponto positivo – aquele aspecto íntegro e amoroso que havia em Noé e que faz parte de cada um de nós. Neste novo mundo, vamos usar a nossa integridade para reconstruí-lo: desta vez, não só para a nossa família nem só para o nosso povo; desta vez, que possamos nos dedicar a reconstruir o mundo para todo mundo, abençoados sob o Pacto do Arco-Íris.