Lag Baómer


Coletânea: Rabino Uri Lam

Lag Baómer é o 33º dia da Contagem do Omer. A expressão “lag” é formada por duas letras, Lámed e Guímel, cujos valores numéricos são respectivamente 30 e 3.

De acordo com a Cabalá é o momento de vivenciarmos um “duplo-hod”: o quinto dia, Hod, na quinta semana, também Hod. Dia de humildade e de ver beleza em tudo, na semana pautada pela humildade e pela percepção da beleza em todas as situações.

Hod é Esplendor

É como embrulhar um presente em um papel bonito e amarrar com uma linda fita. Hod em Hod é o brilho do brilho, um dia para se concentrar na beleza e admirar o conteúdo com humildade.

Lag Baómer não é mencionado na Torá e está apenas sugerido no Talmud. Apesar disso, há uma série de rituais festivos e significativos de Lag Baómer que seguem evoluindo com o tempo.

Do Luto à Celebração

O período do Omer costuma ser vivenciado como um tempo semelhante ao luto, quando casamentos e outras comemorações são evitados em memória de uma epidemia que matou 24 mil estudantes de Rabi Akiva (50-135 ec). Segundo o Talmud, eles não se tratavam respeitosamente entre si, o que levou à expansão da epidemia. Em Lag Baómer a epidemia cessou e o dia passou a ser marcado pela interrupção dos rituais de luto, substituídos por expressões de grande alegria.

Em Israel, em anos comuns, costuma haver festas e piqueniques durante o dia; à noite é comum encontrarmos pessoas ao redor de fogueiras. Segundo o historiador judeu Flavius Josefus, Lag Baómer data do ano 66 ec, quando começou uma revolta contra Roma, com grande vitória por parte do povo judeu. É possível que as fogueiras de hoje comemorem as fogueiras acesas há quase 2.000 anos, em celebração à bem-sucedida resistência judaica à opressão.

Para as crianças

Histórias infantis contam que os soldados de Bar Kochbá e discípulos de Rabi Akiva faziam fogueiras e praticavam arco e flecha para enganar os romanos, fazendo de conta que não estavam passando o tempo a estudar Torá – pois naquele tempo havia uma censura ao estudo da Torá e à difusão de seus valores éticos.

7 maneiras de Comemorar Lag Baómer em 2020

Levando-se em conta as múltiplas facetas de Lag Baómer: o fim de um tempo de luto, o reconhecimento da nossa dependência da produção agrícola, a celebração do estudo da Torá e a consciência do mal que é a repressão a práticas religiosas e culturais, propomos sete maneiras de celebrar Lag Baómer, mesmo estando em casa, protegendo-nos da pandemia do coronavírus.

  1. Faça um piquenique em casa.

Se você mora em casa e tem um quintal, ou se tem uma varanda no seu apartamento, aproveite a tradição de Lag Baómer de fazer um piquenique com a família! Você também pode abrir espaço na sala, estender uma toalha no chão, colocar as comidinhas a base de leite (queijos, manteiga) sucos, pães, e… feliz Lag Baómer!

  1. Monte um acampamento na sala.

Se não houver lugar onde você possa estar fora de casa com segurança, monte uma tenda na sua sala de estar. Pode ser uma barraca ou “tenda de índio” para as crianças, ou colocar um cobertor sobre algumas cadeiras e preparar as caminhas embaixo. As crianças vão adorar!

  1. Trabalhe no jardim ou plante algumas plantas internas.

O período entre Pessach e Shavuot é marcado pelos dias da Contagem do Omer, uma medida de cevada que era oferecida a Deus. Estamos no meio da Contagem do Omer: que tal passar um tempo mexendo na terra e cuidar das plantas que você tem em casa? Momento também para meditar, para arrancar certas ervas daninhas que crescem entre o melhor que você cultiva dentro de si mesmo.

  1. Estude Torá, Talmud e Cabalá.

Você pode fazer preparar um estudo com passagens da Torá, do Talmud e de textos da Cabalá em memória dos discípulos de Rabi Akiva, que morreram em decorrência de uma epidemia na sua própria época e são lembrados nestes dias. Pode ser um estudo proposto pelo seu rabino ou com ele online. Ou proponha um estudo para o seu rabino para os dias que vão de hoje até Shavuot, ele vai adorar!

  1. Tente cortar o cabelo em casa.

Muitos judeus evitam cortar o cabelo durante o período do Omer, por conta do período de luto. Mas Lag BaÓmer rompe com o luto! Que tal aproveitar para cortar o cabelo dos seus pequenos? Não se esqueça de assistir alguns vídeos no YouTube antes de cometer um cabelocídio 

  1. Participe de grupos e eventos inter-religiosos.

A intolerância religiosa esteva na raiz das leis que proibiam Rabi Akiva e seus discípulos de ensinarem Torá. Promover o diálogo e a compreensão entre as religiões é uma das formas mais seguras de impedir que isso volte a acontecer. Procure se reunir com amigos de outras religiões para estudar juntos algum tema relevante, como compaixão, amor ao próximo, cantarem salmos juntos – há muitas possibilidades. As relações pessoais contínuas entre comunidades religiosas diversas têm o potencial de tornar nossas vidas melhores e fazer um enorme bem para o mundo.

  1. Faça Tzedaká.

Aqui estão três categorias relevantes de instituições a considerar:

– Educação: Rabi Akiva e seus alunos são lembrados principalmente porque foram forçados a estudar Torá em segredo devido às leis que proibiam o ensino da Torá. Hoje passamos por um momento desafiador no ensino de Torá. Se você tiver condições, considere fazer uma doação para a Beth-El ou para a organização da sua preferência, mas certifique-se de que a sua doação será destinada a contribuir para a educação judaica de um/uma jovem da comunidade: por exemplo, para um aluno ou aluna de Bar /Bat / Mitzvá.

Alimentos: Considere fazer uma doação em múltiplos de R$ 33,00 (em comemoração ao 33º dia do Omer) para instituições dedicadas a fornecer alimentos para quem precisa. Em tempos de confinamento e perda de emprego, toda ajuda será bem-vinda.

Saúde: Tradicionalmente, a contagem do Omer é um período de luto que lembra as mortes dos alunos de Rabi Akiva por conta de uma epidemia. Em meio à crise global causada pela nossa pandemia atual em torno do coronavírus, considere fazer uma doação em múltiplos de R$ 33,00 para uma organização dedicada à saúde.

* Baseado em artigo de Kelly Hershberg: https://reformjudaism.org/jewish-holidays/lag-Baómer/9-ways-celebrate-lag-Baómer-time-coronavirus

Rav Shimon Bar Iochai, o Rashbi

Muitos judeus também marcam Lag Baómer em memória da morte de Rav Shimon bar Iochai, aluno de Rabi Akiva e sábio do século II que, reza a tradição, realizou muitos milagres e teve acesso a um vasto conhecimento místico. Alguns o consideram o autor do Zohar, texto místico judaico provavelmente da Idade Média, mas atribuído a ele, mil anos antes. Bar Iochai morreu no 33º dia do Omer, e seu yahrzeit (aniversário de sua morte) é conhecido como um Iom Hilulá (dia de festividade para comemorar a morte de um líder místico justo), habitualmente celebrado com fogueiras, música e festas, inclusive próximo do seu túmulo em Meron, a caminho de Tzfat, no norte de Israel.

Na Polônia Entre Guerras, séc. 20

 Judeus Ortodoxos Ashkenazís

Entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, o feriado era amplamente celebrado tanto em comunidades ortodoxas quanto seculares sionistas. Milhares de judeus ortodoxos viajavam para Cracóvia a fim de visitar o túmulo do Rema o Rabino Moshe Isserles, autor do comentário ashkenazí para o Shulchan Aruch, no séc. 16.

Macabi e o Dia Judaico dos Esportes

Por ocasião do feriado, o Fundo Nacional Judaico instava as pessoas a oferecerem seus ganhos de um dia para a “causa palestina”, ou seja, para a construção do Estado Judeu. Os jovens nas escolas participavam de uma cerimônia na sinagoga local e depois iam para as quadras de esportes administradas pelo Macabi, organização que desde 1928 tratava Lag Baómer como o Dia Judaico dos Esportes. Havia competições especiais de arco e flecha com ginásios prontos em caso de mau tempo. Desfiles anuais e competições atraíam multidões de estudantes e membros dos movimentos juvenis sionistas em Varsóvia.

Os Movimentos Juvenis e o Renascimento do Novo Judeu

As comunidades judaicas sionistas celebravam Lag Baómer na Polônia a partir de uma leitura singular da história de Rabi Akiva. Sua mensagem enfatizava o tema patriótico da “última insurgência militar de Rabi Akiva antes da Diáspora”. A organização juvenil Akiva (ou Bnei Akiva), em sua revista de 1934, Divrê Akiva, publicou um apelo especial para o feriado, do qual destacamos algumas linhas:

“Lag Baómer tornou-se um feriado da juventude judaica renascida, um festival de sua força e símbolo de sua força. No entanto… nem todos se libertaram da escravidão da Galut [do Exílio] – nem todos se levantaram para uma nova vida. Então estamos chamando você! Deixe Lag Baómer se tornar um feriado de todos os jovens judeus – que seja um dia da difícil decisão de entrar em uma nova fase de suas vidas. – Todos vocês em cujos corações a rebelião está queimando e clamando pelo renascimento de um novo judeu, larguem a ociosidade, que é uma desgraça para os jovens, conectem suas vidas ao destino das multidões criativas e alegres dos movimentos juvenis. Há uma grande distância entre o mundo dos esnobes e carreiristas e a vida da vitoriosa Vanguarda Chalutziana do Amanhã”.