Histórias do Reb Uri

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Ohalah, um Jardim do Éden

Reb Uri, 17/01/2020

O que me aconteceu na segunda semana de 2020 esteve além dos meus sonhos. Eu estava em Boulder, Colorado, EUA, na Conferência Ohalah 2020, de rabinos e rabinas, ḥazanim e ḥazaniot (cantores/as religiosos/as) em prol de Jewish Renewal (Renovação Judaica), e conversava com uma senhora chamada Ive Ilsen. Eve é psicoterapeuta, contadora de histórias e cantora. Também atua com aconselhamento rabínico pastoral, realiza e coordena cerimônias judaicas do ciclo de vida. Atualmente, está focada na escrita e em performances ao vivo.

Eu nem sabia que a Ive era tudo isso. Aliás, quando a vi, confesso que eu nem sabia quem era ela. Foi durante a cerimônia de ordenação rabínica do Aleph – instituição fundada nos Estados Unidos, por seu esposo, com o propósito de preparar lideranças religiosas judaicas as mais diversas, entre elas rabinos e rabinas – que me vi ao seu lado em um momento inimaginável para mim.

Minutos antes, eu lia a oração de ordenação de quase uma dezena de novos rabinos, entre eles José Amarante e Elca Rubinstein, amigos e agora colegas no Brasil. Pela primeira vez, além de recitada em hebraico e em inglês, a oração foi recitada em português. Em seguida rezamos em memória do rabino e mestre de todos os presentes: Reb Zalman Schachter-Shalomi.

Foi então que me vi novamente ao lado da Ive, que compartilhou boa parte da vida com este gigante da tradição e da renovação da espiritualidade judaica, inclusive no Rio de Janeiro, nos anos 90, ao lado do rabino Nilton Bonder. Eu a agradeci – ela nem sabia por que eu agradecia, mas provavelmente deduzia. Eu agradecia pelo legado do seu esposo. Mesmo não o tendo conhecido pessoalmente, Reb Zalman fez de mim muito do que sou como líder religioso.

Ive me deu sua mão, eu a abracei e dos meus olhos brotaram rios de gratidão. Assim rezamos juntos, com outras 300 pessoas talvez, o Kadish de’Rabanán, Oração de Gratidão a Deus em Memória dos Nossos Mestres.

Esta experiência espiritual inimaginável já me teria sido mais do que suficiente. Como diriam os americanos, I’m humbled; em hebraico é katonti, me vejo pequeno diante de tanta generosidade por parte de Deus.

Mas a Conferência Ohalah 2020 foi, conforme o colega e novo amigo, Rabino David Teva – filho do Rabino Michael Leipziger – um Jardim do Éden para rabinos. Estivemos “fora do mundo” por uns dias, preenchidos por miríades de cores, sons, insights e até esquisitices que, neste contexto, também são divinas.

Estou ainda em viagem, com sono, mas ainda sonhando, no aeroporto de Toronto aguardando o voo para São Paulo. Amanhã já estarei de novo, com alegria, a alma recalibrada e carregada de neshimot amukot (em tradução livre: de profundas inspirações e insights) na Beth-El para me reencontrar com a minha comunidade – e antes ainda disso, com a minha amada esposa e meus filhos queridos. Levo comigo, de Boulder, calor humano, espiritualidade revigorada, flores, aromas, sons e cores deste jardim para compartilhar, na esperança de que queiram receber e multiplicar tanta luz recebida nestes dias. Além disso, a honra de ser “shalíach”, portador da Ive de um valor em tzedaká para alguém no Brasil: “Você tem que chegar vivo para doar em meu nome e de Zalman”, disse ela, “assim eu sei que você terá uma viagem boa e segura”. O mesmo gesto foi repetido pelo rabino David Teva, formado pelo Aleph, o seminário rabínico Jewish Renewal (aliás, mazal tov queridos Rabbi Rubi – Elca Rubinstein, e Rabino José Amarante, vocês estavam plenos e lindos!). Ive e David me deram uma lição de como abençoar alguém em viagem. Reb Zalman, que sua sabedoria continue alimentando nossas memórias e corações. Reb Ive, continue a inspirar, por muitos e muitos anos.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]