Bereshit

(em memória da Rabina Regina Jonas z”l)

Rabino Uri Lam, out. 2020 / Tishrê 5781

“O dia da morte é melhor do que o dia do nascimento.” (Eclesiastes 7:1)

O mundo nasce assim: Bereshit… No início… Início do que? Parece faltar uma palavra. Alguns sábios explicam que a palavra reshit pede um complemento: início de alguma coisa: assim, deduzem, a palavra que falta é “tudo”: “No início de tudo, Deus criou o Céu e a Terra”.

Ainda mais: Deus não criou somente o Céu e a Terra; Deus criou tudo, do Céu até a Terra.

No primeiro dia, todas as possibilidades estão abertas: podemos tudo e não sabemos nada. Na Terra, tudo era um tohu vavohu. A Escuridão cobria tudo. Tantos instrumentos à disposição, mas uma bagunça, nada se encontra! Nem Deus se encontra: Seu Espírito paira sobre um imenso espelho d’água, mas tudo o que Ele vê é o Nada, reflexo de Si Mesmo, do Ein Sof, do In-Finito. Deus então decidiu lançar luz sobre Sua criação e finalmente pôde começar a distinguir o que havia por trás da escuridão.

“O dia da morte é melhor do que o dia do nascimento”. 

No primeiro dia tudo está à disposição e nada se sabe; no último dia, nada mais está à disposição – mas talvez tudo se saiba.

Hoje é o yuhrzeit da Rabina Regina Jonas. Ela foi deportada de Theresienstadt no dia 12 de outubro de 1944 para Auschwitz, onde chegou no dia 14 de outubro, em Shabat Bereshit, como hoje. Depois disso, nunca mais se soube dela. Por isso, este Shabat foi considerado o dia da sua morte para o mundo tal qual conhecemos.

Nascida em Berlim em 1902, em uma pobre família ortodoxa, Regina seguiu seus estudos na escola judaica liberal Hochschule für die Wissenschaft des Judentums: enquanto as outras mulheres estudavam para serem professoras, Regina estudava para ser rabina: nos Anos 20 do Século 20. Sua tese de conclusão de curso foi: “Pode uma Mulher se Tornar Rabina de acordo com as Fontes Haláchicas?” Muito elogiada, mas ninguém tinha coragem de ordená-la, com medo de perturbar a sempre e tão decantada união na comunidade judaica; ainda mais em um tempo de ameaça nazista crescente. Regina Jonas foi finalmente ordenada rabina, em uma cerimônia particular, pelo rabino Max Dienemann, em 1935.

Apesar de desdenhada por muitos, Regina persistiu. Trabalhou em hospitais, lares para idosos e escolas. Enquanto seus colegas homens deixavam a Alemanha, Regina ocupava seus lugares e predicava nas sinagogas.

“E Deus separou a luz da escuridão.” A história de Regina Jonas só veio à luz em 1991, quando uma professora de Estudos Religiosos encontrou, acidentalmente, uma pequena caixa com escritos da rabina em um arquivo de Berlim. Entre os documentos, uma foto sua com vestes rabínicas, uma cópia da sua tese de rabinato e do seu certificado de ordenação rabínica.

Hoje é o yuhrzeit da Rabina Regina Jonas. Quase 100 anos depois da sua tese sobre o direito de as mulheres serem rabinas, hoje no Brasil temos somente uma rabina em atuação. Que o espírito persistente de Regina Jonas nos ilumine e ilumine o caminho daquelas que seguem seus passos.