Ḥaiê Sara

Rebeca, nossa Matriarca e Mestra

novembro de 2020 / Ḥeshván 5781

Rabino Uri Lam, Beth-El

Conta-se que, três anos depois que Sara morreu, aos 127 anos, Abrahão se deu conta de que, se dependesse do filho Isaac, já com 40 anos, as chances de ter netos seria muito pequena. Por sua vez, Isaac não tinha uma referência paterna saudável: um dia seu pai colocou uma faca no seu pescoço e, se não fosse um anjo, Isaac estaria morto. Será que, agora adulto, teria vontade de ter filhos? E se não fosse o caso, como ficaria a promessa feita por Deus a Abrahão? Talvez ficasse toda a responsabilidade para Ismael, seu meio irmão, filho de Hagar.

Abrahão estava decidido a fazer a sua parte para que a promessa de Deus se realizasse. Decidiu então confiar a Eliézer, seu servo mais experiente, que gerenciava todas as suas posses, a missão de encontrar uma esposa para Isaac.

Conta o Midrash Tanḥumá (Noaḥ 12:3) que Abrahão não queria que Isaac fosse como os homens da geração do Dilúvio: “Os filhos dos poderosos viram as filhas dos homens… e fizeram delas suas esposas.” (Gên. 6:2). Aqueles homens se achavam no direito de tomar para si a mulher que quisessem, mesmo que elas não os desejassem. Tratavam-nas como objetos, não como mulheres de fato. Essa foi a razão, conta o midrash, pela qual Deus quase perdeu a fé no ser humano. Por isso, depois de apenas 20 gerações, a humanidade quase foi extinta. Abrahão queria para o filho uma relação amorosa e verdadeira, não baseada no poder, na dominação, nem na violência.

Eliézer partiu, foi à cidade de Naḥor e, ainda fora da cidade, ao entardecer, deu descanso aos camelos diante dos poços, “quando as mulheres saíam para tirar água.” (Gên. 24:11)

Lemos no Zohar: “fora da cidade significa no cemitério; diante dos poços refere-se… àqueles que são os primeiros do cemitério (a ressuscitar).” (1:130b). Eliézer estava ansioso, num tempo entre a morte e a renovação da esperança. Seguimos com o Zohar: “as mulheres saíam para tirar águarefere-se aos estudiosos da Torá, que tiram água da Torá.” Uau. Em uma obra medieval que se pretende ainda mais antiga, as mulheres representam os estudiosos da Torá!! Das mulheres vem uma água pura e cheia de vida! Parafraseando o Profeta Isaías (2:3): “Ki mehanashim tetzê Torá”, Pois das mulheres virá a Torá”. Aprendemos esta lição do séc. 13, do Zohar.

Eliézer fez uma prece: “Senhor Deus do meu mestre… faça uma bondade (ḥéssed) com o meu mestre Abrahão.” (Gên. 24:12) Segundo a Kabalá, Abrahão está identificado com a Sefirá de Ḥéssed, a emanação divina de Bondade, ligada ao elemento Água. Na Árvore da Vida, Ḥéssed tem como contraponto a Guevurá, a emanação divina de Coragem, ligada ao elemento Fogo.

Assim que Eliézer terminou sua prece, surgiu uma jovem, Rebeca, que veio tirar água do poço. Eliézer lhe pediu água / bondade; Rebeca saciou a sua sede e a dos animais; foi mais bondosa do que o esperado. Eliézer agradeceu: Bendito seja, Eterno… por não ter afastado a Sua bondade e a Sua verdade do meu mestre”. (Gên. 24:27).

Eliézer pediu bondade para Abrahão; recebeu Bondade e Verdade. Ao longo da vida, Abrahão nem sempre fez o que era certo. Mas na sua velhice, buscou fazer o melhor que estava ao seu alcance, de verdade, por amor a Sara e a Isaac. Quanto a Isaac, ao pedir por uma esposa, pediu pelo que ele mais precisava: Guevurá – Coragem e Fogo. Veio Rebeca: corajosa e proativa, que tinha em si o fogo para formar uma família com Isaac. Mas além de coragem e fogo, Rebeca ainda tinha algo a mais, essencial: a sabedoria da Torá. Ushavtem maim bessasson mimaaianê haieshuá / “Tire água com alegria dos poços da salvação” (Isaías 12:3)

Esta foi Rebeca, Rivka Imênu ve-Rabatênu, nossa Matriarca e Mestra: a mulher que, com alegria e verdade, paixão e coragem, tirou água da Torá e a ensinou para Isaac, na Tenda (no Beit Midrash) de Sara.